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Data de Publicação 03/03/2021 - 09:53 Atualizado em 03/03/2021 - 09:53 808 visualizações

Paleontólogos encontram réptil herbívoro mais antigo que os dinossauros no interior do Rio Grande do Sul

Imagine viver em um planeta devastado – gigantescas erupções vulcânicas na Sibéria iniciam uma reação em cadeia que resulta em um efeito estufa sem precedentes. Como resultado, cerca de 90% de todos os seres vivos são dizimados. Essa, que parece a cena de fundo de um filme apocalíptico de ficção científica, foi realidade em nosso planeta há pouco mais de 250 milhões de anos. Mas, contrariando as probabilidades, a vida resistiu. Modestos ecossistemas começam a proliferar em um planeta árido e inóspito, onde uma árdua luta pela sobrevivência decide quem vai deixar descendentes e repovoar a Terra quase inabitada.

Neste difícil cenário viveu o pequeno Oryporan insolitus. O bichinho, recém descoberto por paleontólogos da Universidade Federal do Pampa (Unipampa) e Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), foi encontrado em rochas do início do período Triássico, no coração dos pampas gaúchos.

“O Triássico é conhecido por dar início à Era dos Dinossauros. Neste período, que começa após uma assustadora extinção em massa, vários dos grupos de animais e plantas que nos são familiares hoje surgiram e começaram a proliferar”, explica o paleontólogo Felipe Pinheiro (Unipampa), que liderou o estudo.   

Oryporan não era um dinossauro. O pequeno réptil faz parte do grupo dos procolofonídeos, comuns na época e hoje totalmente extintos. Pequenino, media pouco mais de 30 centímetros de comprimento. O nome, na língua guarani, significa “belo sorriso”, fazendo referência aos dentes bem preservados do crânio fossilizado encontrado pelos paleontólogos.

Inventando o vegetarianismo

Antes do período Triássico, os procolofonídeos se alimentavam principalmente de insetos, abundantes nas densas florestas que acabariam por ser devastadas pela extinção em massa. No planeta destruído pelo cataclisma, os bichinhos tiveram que se reinventar, e acabaram “descobrindo” o vegetarianismo.

“Oryporan é a prova viva do velho ‘adaptar-se para sobreviver’”, diz Felipe. “O novo bichinho é o primeiro procolofonídeo que se tem notícia a mostrar especializações para uma dieta herbívora, que posteriormente acabaria sendo regra para o grupo”.   

Ainda não se sabe ao certo o que levou à extinção dos procolofonídeos, mas os fósseis mostram que a dieta vegetariana foi fundamental na proliferação desses pequeninos répteis durante o período Triássico.

A descoberta

O crânio fossilizado do Oryporan foi encontrado próximo à cidade de São Francisco de Assis, interior do Rio Grande do Sul. Nos últimos anos, pesquisadores da Unipampa e UFSM passaram a explorar rochas formadas logo após o grande evento de extinção em massa, a procura de animais que sobreviveram ao cataclisma e acabaram por repovoar o planeta.

“O fóssil foi encontrado numa tarde quente de verão, e como preserva as linhas de dentes, parecia que estava sorrindo para nós. Um sorriso do passado, para nos alegrar no presente, e nos alertar sobre o futuro”, relata o Professor Átila da Rosa, paleontólogo da UFSM, responsável pelo achado.

O Brasil é um dos poucos lugares do mundo onde fósseis dessa idade são encontrados, e as novas pesquisas estão nos ajudando a entender como a vida se recuperou após a Grande Extinção, dando origem aos ecossistemas atuais. 

    • Oryporan insolitus recém encontrado por paleontólogos da Unipampa e da UFSM - Imagem: Marcio Castro
      Oryporan insolitus recém encontrado por paleontólogos da Unipampa e da UFSM - Imagem: Marcio Castro