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Data de Publicação 04/02/2026 - 18:12 Atualizado em 04/02/2026 - 18:15 419 visualizações

Professora da Unipampa participa de série documental na TV Brasil em episódio sobre Sepé Tiaraju

Pesquisadora colaborou em episódio do programa “Como Nascem os Heróis” da emissora da EBC
Por Aline Reinhardt da Silveira

Escovar a História a contrapelo e investigar quando, por que e como nascem os chamados heróis e heroínas da pátria brasileira. Esse é o propósito da série documental “Como Nascem os Heróis”, da TV Brasil, canal público de televisão da Empresa Brasil de Comunicação (EBC). Ao longo da série, cada episódio se dedica a apresentar e analisar fatos e informações sobre figuras históricas que tiveram seus nomes gravados no Livro de Aço dos Heróis e Heroínas da Pátria, memorial brasileiro situado no Panteão da Pátria, em Brasília.

Com episódios dedicados a nomes como Anita Garibaldi, Dom Pedro I, Duque de Caxias, Zuzu Angel, Zumbi dos Palmares, entre outros, o episódio de número 8 da primeira temporada, dedicado a Sepé Tiaraju, contou com a participação da professora da Universidade Federal do Pampa (Unipampa), Suzana Cavalheiro de Jesus, como pesquisadora convidada para falar sobre as dimensões antropológicas da trajetória desse herói. O convite surgiu em função de seu trabalho de 19 anos pesquisando etnologia indígena, especialmente povos guarani, no Sul do Brasil e leste da Argentina. A docente, que atua no curso de Educação do Campo do Campus Dom Pedrito, no Programa de Pós-graduação em Ensino do Campus Bagé, e que integra a equipe da PROCADI, como Chefe da Divisão de Educação Inclusiva e Acessibilidade, relata que as gravações ocorreram em agosto de 2024, e a série chegou à TV no final de 2025 e início de 2026. 

Suzana Cavalheiro de Jesus em Como Nascem os Heróis. Reprodução TV Brasil

A série é apresentada por Rita Von Hunty, personagem drag queen criada pelo ator e professor Guilherme Terreri, e foi idealizada pelo historiador e pesquisador Rafael Leoporace Farret. “Foi ele quem fez o levantamento dos nomes das pessoas a serem entrevistadas. Como minha tese de doutorado foi realizada na Tekoa Ko'enju, localizada na região das Missões, Sepé Tiaraju foi um tema importante da pesquisa. Dediquei-me a estudar narrativas que os guarani formulavam sobre Sepé e tenho publicações a este respeito”, resume Suzana.

No episódio sobre Sepé Tiaraju, participam como entrevistados a professora e pesquisadora da Unipampa, Suzana Cavalheiro de Jesus, e o professor Werá Tupã, professor guarani e tradutor, graduado pela UFSC e líder da aldeia Yvy Ju/Reta, além do ex-presidente da Câmara dos Deputados Marco Maia, enquanto autor do Projeto de Lei que resultou na inclusão de Sepé Tiaraju no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria. 

A série pode ser assistida online gratuitamente, em um navegador pelo endereço https://play.ebc.com.br/programas/816/episodios/11105/como-nascem-os-herois ou ainda pelo aplicativo para celular da TV Brasil.

 Como Nascem os Heróis. Reprodução TV Brasil

 

Sepé Tiaraju na História e na pesquisa acadêmica

No episódio de aproximadamente 27 minutos, são abordadas as evidências conhecidas sobre quem foi Sepé Tiaraju, controvérsias em torno de sua origem e episódios de vida, o funcionamento das Reduções Jesuíticas, seu papel de liderança especialmente na Guerra Guaranítica. “Do nascimento de Sepé até sua morte, ele se torna esse herói por defender as terras missioneiras”, explica Suzana em trecho do episódio do qual participa, uma narrativa que é disputada por diferentes grupos e movimentos sociais que reivindicam a figura do indígena que viveu no século XVIII. 

Na pesquisa, o trabalho desenvolvido por Suzana chega à figura de Sepé Tiaraju enquanto ela estudava sobre o nhande reko guarani, termo que a antropologia convencionou traduzir como modo tradicional de vida guarani. “Eu pesquiso com povos guarani desde 2007. No doutorado especificamente eu fiz uma pesquisa etnográfica na Tekoa Ko'enju, na reserva indígena Inhacapetum, a terra indígena que fica dentro de São Miguel das Missões. Boa parte dessa população se desloca para vender artesanato nas ruínas de São Miguel e tem muito forte esse vínculo com a memória missioneira e com a memória de Sepé Tiaraju”, afirma a professora em conversa com a ASCOM Unipampa.

Em “Como Nascem os Heróis”, Suzana aborda os modos de vida e organização social guarani, e sua perspectiva histórica nas Reduções dos Povos das Missões, e destaca como possivelmente esse era um outro jeito de viver que os colonizadores não conheciam, e uma forma de organização profundamente negociada e com traços propriamente indígenas das populações originárias desse país. 

“A minha pesquisa foi sobre as aprendizagens sobre o nhande reko guarani, termo que antropologia convencionou traduzir como modo tradicional de vida guarani, as aprendizagens vivenciadas pelas crianças no grupo doméstico, dentro da comunidade, com as mães, as avós, os familiares, na escola, e nas vendas de artesanato que aconteciam nas ruínas das reduções de São Miguel Arcanjo, próximo ao Museu das Missões”, contextualiza. A professora relata que durante o período em que realizou trabalho de campo, de 2012 a 2015, na aldeia em que pesquisava diversos filmes estavam sendo produzidos pelo coletivo Mbya-Guarani de Cinema/Vídeo nas Aldeias, e, dentre esses filmes, produções sobre as narrativas guarani sobre o passado missioneiro. “[Nessas produções] vinham muitas narrativas sobre como os guaranis foram aprendendo sobre a história de Sepé, as versões guarani da história das reduções, das relações com os Jesuítas e sobre o papel do Sepé tanto na Guerra Guaranítica quanto dentro das reduções. É aí que a figura dele se insere na minha pesquisa. Tem um capítulo na minha tese que é sobre essas produções de filme e também uma parte importante da tese é sobre essa relação que os guaranis que vivem na região das Missões eles estabelecem o tempo todo com representações não indígenas sobre esse passado missioneiro, porque o Sepé Tiaraju é um indígena acionado pelo Movimento Tradicionalista Gaúcho, pela diocese de Santo Ângelo, com o processo de canonização do Sepé como Santo, por exemplo. Tem todo um trabalho e uma relação que eles vivem no cotidiano sobre esse passado”, explica.

 Como Nascem os Heróis. Reprodução TV Brasil

Reconhecimento e divulgação científica

Sobre a importância de participar de iniciativas como essa, Suzana destaca como sendo não só uma alegria profissional para si, mas também como um relevante espaço de divulgação e popularização dos estudos das ciências humanas. “Para mim é uma grande alegria ter sido chamada, enquanto pesquisadora, para compor essa série”, e afirma que “me agrada muito estar inserida nesse debate, acho que é um reconhecimento. São 19 anos de pesquisa na área e acho que sempre é importante quando somos apontadas como uma referência no tema que nós pesquisamos. Fico muito feliz também de sair desse lugar da academia de sair dos espaços estritos da etnologia indígena e da antropologia né tentar transpor essa discussão numa linguagem mais acessível para ser veiculada para um grande público”.

O papel de séries como essas para que se conheça mais a História do Brasil e as contradições envolvidas nesse processo também é destaque na avaliação da docente, que elogia a qualidade da produção que foi ao ar. “É um trabalho muito sério, e na TV Brasil, que é uma emissora que se propõe a dialogar com temas do cotidiano do país, a produzir debates que consideram diferentes pontos de vista, e com essa produção que quer explorar todos os lados da construção da figura do Herói e também desromantizar essa perspectiva, evidenciar os conflitos, as contradições, as lacunas, algo que é do trabalho da investigação científica no campo da ciências humanas. Então para mim é uma alegria poder ser lembrada dessa forma, ser chamada para contribuir nessa perspectiva”, comenta.

“Essa popularização da ciência e dos debates das ciências humanas eu acho muito importante, em um período que a gente viveu tanto negacionismo no nosso país nos últimos anos e negacionismo inclusive com relação às ciências humanas, aos fatos históricos e a forma como nos constituímos enquanto país. Eu acho que é uma oportunidade importante da gente apontar como esses conhecimentos vão sendo construídos, e a importância de conhecer a história do nosso próprio país, de se reconhecer também nesses símbolos, nessas figuras heroicas,  o que isso diz sobre o nosso povo, sobre a época em que foi criado, sobre o nosso tempo presente, a perspectiva crítica da Cidadania que está presente em você conhecer a sua própria história. Para mim, isso é de uma importância fundamental para o trabalho docente, para o trabalho da pesquisa em ciências humanas no campo da educação que é o que eu faço”, complementa.