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Artigo de opinião - A primeira Assessoria de Comunicação da nossa Universidade
Data de publicação 15/10/2020 - 14:50 Atualizado em 15/10/2020 - 14:50
Por Hamilton de Lima Souza

A primeira Assessoria de Comunicação da nossa Universidade

Professor Associado da Unipampa

Geder Luis Parzianello

 

      Em maio de 2008, fui nomeado como primeiro coordenador da Assessoria de Comunicação da então Universidade Federal do Pampa, que oficialmente tinha apenas três meses. O convite foi feito pela reitora Maria Beatriz Luce, com quem trabalhei no Grupo Gestor de Implantação da nova Universidade. Eu vinha de uma experiência como assessor de Comunicação da reitoria da Universidade Federal do Maranhão e como assessor do reitor Natalino Salgado, com muita disposição para o trabalho. 

      Encontrei uma universidade apenas começando. Um só prédio no Campus São Borja, onde eu estava lotado como professor e onde implantaríamos então a ACS, como unidade ligada à Reitoria. O começo não foi fácil. Havia muita coisa a ser feita e havia pouco pessoal. Os primeiros concursos para servidores ainda estavam apenas previstos e não tínhamos como esperar até que se realizassem. O trabalho de uma assessoria precisava começar e antes mesmo que tivéssemos condições mais ideais de prestação de serviços. 

     A confiança da reitoria e sua equipe no meu trabalho e dos poucos alunos que consegui para me ajudarem neste desafio foram fundamentais para termos resultados bastante satisfatórios naquele momento histórico. Somando a experiência, fiquei quatro anos no cargo na Unipampa, somados aos dois anos de experiência na mesma função na UFMA, totalizando então seis anos ininterruptos de gestão universitária, quando então, com a saída da reitora Maria Beatriz Luce, decidi me dedicar à carreira de pesquisador e docente e não assumi mais nenhuma função gestora. 

     Com ajuda de um programa de bolsas interno, selecionei então quatro alunas que assumiriam o trabalho comigo e começamos a atuar na nova assessoria. Nem sala própria nós ainda tínhamos. E a primeira sala que conseguimos, era minúscula, não cabíamos todos nós. Depois dividimos espaço com a Pró-Reitoria de Extensão e assim fomos aos poucos nos situando nas instalações que começaram a ser construídas. Lembro bem que a comunidade acadêmica da Unipampa, ainda pouco mais de 200 professores e umas cinco dezenas de técnicos, considerando os 10 (dez) campi da nossa Universidade, faziam críticas, exigências e cobranças da nossa ACS no nível de uma universidade tradicional, já implantada e com equipe de trabalho, equipamentos e estrutura física. Muitas críticas nos pareceram improcedentes, injustas, pessoais até, mas nada disso nos desviou dos objetivos e prosseguimos nosso trabalho. 

     A ACS fazia muito em favor da imagem da Universidade. Começávamos a ser vistos pela comunidade, conhecidos em nosso nome e nossas ofertas de cursos. Ganhávamos com frequência espaços de mídia generosos, por sermos uma universidade pública federal em implantação e, sobretudo, numa região tão carente de oportunidades de acesso ao ensino público superior de qualidade, como era a região Meso-sul do nosso Estado. Todas as dez unidades da nossa Unipampa encontram-se, aliás, nesta região metade Sul e têm levado muito desenvolvimento a uma parte do Estado até então relegada ao atraso e ao número reduzido de oportunidades de formação, trabalho e renda. 

     A Assessoria de Comunicação foi desenvolvida por então um professor e quatro estudantes. Depois renovados, com novos processos de seleção de bolsa e que garantiu a experiência a mais estudantes. Cobríamos as dez cidades da Unipampa. Criamos uma rede de informantes e colaboradores em cada Campus e tínhamos um contato quase que diário com eles, que nos davam as fontes e as pautas possíveis para uma cobertura do que estava acontecendo dentro de nossa Universidade. Fazíamos então entrevistas direto de São Borja ou, quando justificado, nos deslocávamos para a cobertura de algum evento especial ou alguma pauta mais decisiva, como uma inauguração, por exemplo. Como a universidade era ainda bem pequena, quase todos nos conhecíamos por nome e tínhamos uma preocupação de que a ACS realmente desse espaço e visibilidade com imagens e depoimentos do que acontecia em cada Campus nas dez cidades. 

     Mas nossa tarefa não era apenas jornalística, de coberturas. Também tínhamos a agenda da Reitoria, ajudávamos em outras ações, de marketing, propaganda, promoção e realização de eventos e cuidávamos da imagem externa da instituição. Levamos pela primeira vez a Unipampa para a Expointer, a maior feira agropecuária da América Latina e que acontece anualmente em Esteio-RS. Estivemos representando a Universidade em fóruns gestores em Brasília, junto ao Mec e junto a Andifes, atuamos na organização e execução das primeiras formaturas, nos primeiros dois anos de colações de grau, em toda a Universidade. Tínhamos uma extensa pauta de serviços nesse especial ponto de agenda, com a locação e supervisão dos locais de formatura inclusive, sendo que a Unipampa respondia sozinha pela solenidade das colações de grau em cada Campus, organizando e contratando serviços. 

     Todas as solenidades seguiam rigorosamente o protocolo das colações de grau formais e tradicionais e tínhamos em Bagé uma equipe de apoio para esta especial finalidade. Logo chegaram os concursos de novos servidores que atenderiam à ACS e demais setores já implantados. Nossa primeira colega, aprovada em primeiro lugar para atuar na ACS foi Camila Tomazoni e com ela e comigo atuavam os alunos bolsistas. Fazíamos tudo, de fotografia a cerimonial, de cobertura jornalística à preparação de peças gráficas, visuais, da imagem da Unipampa. Com a chegada de novos colegas, fomos nos desafiando aos primeiros vídeos institucionais. Tudo bastante alicerçado na garra de querer fazer o melhor, mesmo ainda sem muitas condições que desejávamos. Fizemos as primeiras compras por licitação de equipamentos, trabalhamos no auxílio ao projeto de construção do primeiro estúdio de televisão da Unipampa e começamos as discussões para a criação de uma rádio universitária. Faltavam braços para tantas tarefas. Mas nos empenhávamos, sem horário, sem medir força ou sacrifícios, ficando até seis dias ausente da família, para atender muitas vezes às demandas de reuniões da Reitoria e atividades previstas em cada uma das dez cidades. Na verdade, não parávamos para pensar no que aquela dedicação quase integral de 24h nos trazia em ônus pessoais, o ideal de implantar a Universidade estava acima, como um desafio assumido e que devia ser levado até sua concretização. De alguma forma sabíamos que aquela dedicação em horas extensas e o cansaço humano quase diário era uma fase e significaria um protagonismo num processo histórico. Não buscamos o reconhecimento, mas uma satisfação quase pessoal de ver o dever concluído e o sonho da universidade materializado.  

     Poder reunir estas memórias neste momento, está sendo uma experiência maravilhosa, não apenas pelo registro futuro que estas observações de cada olhar de quem fez parte dessa história, mas principalmente, para que se possa olhar com orgulho para os feitos e ver que quando se tem obstinação as coisas acontecem. Era surpreendente a todos os homens públicos, de fora e dentro do âmbito acadêmico, que fazíamos uma Assessoria de uma universidade multicampi funcionar com tão pouco pessoal e tão poucos recursos.  Não havia tempo para ficar obsoleto frente aos computadores, pensativo, era preciso executar. Tínhamos o apoio e orientação diário e permanente da reitora e sua equipe. Nunca nos sentimos sozinhos. Todo o trabalho tinha sempre o respaldo institucional e a segurança das escolhas estratégias que tomávamos. 

      Trabalharam na primeira formação da ACS como bolsistas Mirelli Lersch, Marcia Solares e Luana Raddatz. A elas somaram-se em seguida Andressa Schneider e Bruna Mena Bueno. Ainda hoje acompanho seus sucessos profissionais, e vejo-as liderando processos de trabalho em consultoria, assessoria e outras frentes, tendo sempre a comunicação social como um esteio de suas ações. Já eram alunas de destaque, foram parceiras impagáveis de trabalho, a quem devo muito, pois sem elas nada do que fizemos teria sido possível, mas mais que isso, se tornaram todas profissionais de muita capacidade. 

      A Assessoria de Comunicação teve quase dois anos depois concursos para jornalistas formados, que vieram então ajudar a construir a Universidade e qualificar nosso trabalho na ACS. Os primeiros concursos garantiram a entrada de dois jornalistas, e com o tempo esses espaços foram renovados e até ampliados, mas ainda não se conseguiu colocar um jornalista atuando em cada Campus da Universidade, que foi sempre um sonho no ideal de nosso projeto. A cada final de ano, redigíamos um extenso e detalhado relatório de nossa gestão, fornecendo dados quantitativos e qualitativos sobre a universidade e sobre nosso trabalho em si. Uma das primeiras conquistas foi perceber, em 2011, que a ACS estava produzindo pautas para empresas de televisão e jornais do Rio Grande do Sul. Estávamos conquistando um espaço de primeiras gerações de fontes autorizadas em alguns campos do conhecimento, sendo procurados por repórteres nas mais diferentes e diversas coberturas. Nossos pesquisadores doutores faziam avaliações para a mídia a respeito de desastres ambientais, de pesquisas na Antártica, de setores agroindustriais, de perspectivas econômicas e uma série de outros temas e campos do conhecimento. Na prática, era a universidade falando mais perto com a comunidade e fazendo a promoção da produção do conhecimento junto à sociedade, a popularização da ciência, que tanto hoje se incentiva promover. 

      Talvez seja particularmente interessante registrar que trabalhávamos na atualização diária do site da Universidade, sendo que a prioridade visual do mesmo era do campo de notícias. Dávamos ao site da Unipampa um perfil dinâmico, com notícias novas até três vezes ao dia, de ampla visibilidade e que serviu por um bom tempo de espaço de pauta aos principais meios de comunicação, que acompanhavam nossas atualizações e nos surpreendiam com pedidos de informações complementares. Conquistamos capas dos principais jornais em circulação no Rio Grande do Sul, fomos destaque em suplementos e chegamos a ter, no auge de nosso trabalho, mais de 80% de aproveitamento de nossas matérias jornalísticas em espaços de notícia, sobretudo em rádios do Estado e nos impressos de todas as regiões de alcance da Unipampa. 

      Tínhamos uma preocupação de sermos conhecidos nas comunidades vizinhas, chegarmos com boa imagem a cidades onde não havia a Unipampa, mas também, consolidarmos a nossa imagem junto a comunidades que acolheram o projeto de uma universidade federal.  Quem olha de fora, pode achar que teria talvez feito melhor ou pode encontrar imperfeições e elas existem. Mas só nós sabemos o que foi e como foi para conseguirmos implantar o que hoje é uma Assessoria de Comunicação em nossa Universidade. Muitos desconhecem este começo, porque ele aconteceu em silêncio, mergulhados que estávamos em executar as tarefas que se faziam necessárias e em planejar as mais urgentes que se apresentavam como desafios. 

      Em pelo menos três momentos pensei seriamente em deixar a coordenação da ACS. Em dois deles, cheguei apresentar carta de saída para a reitora. Não era fácil dar conta de tantas coisas e ainda enfrentar algumas resistências internas. Mas a experiência da reitora, sua sensibilidade humana e administrativa, talvez, sua compreensão de que um contexto maior explicava tensões de interesse e disputas de poder a fizeram não aceitar as duas investidas que fiz nesta direção. Fui até o final de sua gestão, guiado muitas vezes pelos braços de sua generosa experiência. Com ela aprendi muitas coisas. Sobre o ser humano, mas sobre gestão acadêmica também. 

      Tínhamos uma relação intensa de confiança mútua e cumplicidade, sempre com muito senso de responsabilidade e desejo de sermos ágeis e eficientes. Éramos em muitos aspectos muito parecidos. Recordo-me de suas gentis, mas firmes cobranças, da forma como se fazia onipresente, de nossa comunicação fluida e segura, de nossa objetividade de encaminhamentos e reuniões. De seu pragmatismo sem perder a capacidade reflexiva.  Lembro-me de sua relação firme e decisiva com lideranças políticas de toda região e de como articulava apoios a projetos de interesse da universidade. A professora Maria Beatriz, como eu a chamava, foi um exemplo e será para mim sempre inesquecível do quanto devemos agir com nossas consciências e propósitos, absorvendo das críticas apenas o que elas tenham de construtivo e a favor de nossas metas e ideais. 

      A Assessoria de Comunicação foi criando aos poucos sua própria imagem. Usando verbas de representação que estavam a nosso ver embutidas em nossas FGs (Funções Gratificadas) e ou CDs, por cargos diretivos, financiamos uma identidade visual do setor e uniformizamos também nossa equipe. Éramos vistos em eventos internos e externos e assim fomos sendo reconhecidos por nossos colegas em função dessa visibilidade de nossa atuação.  

     O ambiente de produção da ACS por muitas vezes assemelhava-se a uma redação padrão de grande mídia, com ritmo e dead-line, horários de fechamento de cada tarefa e supervisão e copydesks constantes nos textos. Não tínhamos qualquer censura para nossa produção, nosso texto informativo passava apenas por nosso próprio controle de qualidade de estilo e revisão, sobretudo, de digitação e gramática. Nunca fomos advertidos pela forma de condução de alguma cobertura nem criticados pela gestora a qual estávamos subordinados, em relação ao ponto de vista de algum texto, ou vídeo. Isso se deve ao fato, principalmente, de termos encampado nosso pensamento como sendo o pensamento institucional e não pessoal. Muitas vezes, ao decidir, pensava qual seria a decisão dela, como reitora, e me guiava por esta impressão dedutiva. Nunca errei. Conheci muito de perto o projeto de universidade que ela administrava e sentia muito presente cada um dos posicionamentos que ela declarava em reuniões do Conselho Universitário (Consuni) ou em outros tantos momentos da função gestora que desempenhava. Por aprender a escutá-la, por conhecer sua forma de pensar, não parecia difícil decidir entre difíceis escolhas que o cotidiano de um assessor envolve. Com o tempo, eu já conseguia me antecipar a algumas de suas decisões e encaminhamentos, a proximidade que tivemos foi decisiva para este nível de cumplicidade.

      Recordo-me de uma noite, após uma extensa agenda em uma cidade na qual a equipe diretiva se encontrava, que a professora Maria Beatriz me falava então, de modo um pouco mais pessoal e íntimo, sobre uma necessidade que sempre teve de se sentir ocupada e ativa, produtiva mesmo, e que por isso tinha aceitado o desafio de assumir a reitoria da universidade em implantação, primeiro numa função pró-tempore e depois como eleita a primeira reitora da Unipampa. E quando a ouvi falar dessa disposição lembrei que fui assim por longos anos de minha trajetória e ainda mesmo depois dos 50 anos sentia-me disposto a novos desafios, tendo então me lançado a um pós-doutorado na Alemanha e acumulado duas experiências mais como professor visitante na Europa. Uma universidade se faz, sobretudo, de pessoas, mas de pessoas obstinadas, que desejem de fato trabalhar. Todos nós sabemos o investimento pessoal e emocional que significa a opção de passar um tempo no exterior, novamente distante a maior parte do tempo da família, e querendo ainda assim realizar novos projetos. Nada foi fácil, nada é fácil. 

     Por isso costumo sempre admirar as pessoas que avançam, em detrimento das que ficam encontrando desculpas ou queixando-se de suas condições e em geral encontrando desculpas e justificativas nos outros para boa parte de seus acomodamentos pessoais. Evidentemente, não tenho a energia e determinação da professora Maria Beatriz Luce, que até os 70 anos trabalhou com o fôlego de fazer inveja a muita gente nova. Mas nem pretenderia tanto. Já me sinto orgulhoso por poder olhar para trás e ver essa história da forma como a vejo e sentir que não fui fraco, nem omisso, nem desisti, e muito pelo que aprendi com ela. 

     Algumas das verdades que ela me ensinou e tantas vezes no exemplo e em outras na forma de provérbios populares, levo hoje ainda como verdades em minha vida. A experiência de implantar a primeira assessoria de uma universidade nova e de trabalhar nesse grupo gestor de implantação da Unipampa me favorecera conhecer as angústias e acompanhar as soluções encontradas  para os muitos problemas que a nossa equipe maior, de gestão superior, enfrentava no dia a dia. Tive a sensação muitas vezes de que eu estava ao lado de pessoas muito competentes e que só a história futura faria reconhecer devidamente, não me enganei. 

     A Universidade Federal do Pampa tem por certo desafios ainda maiores nos dias de hoje, e certamente enfrentou outros tantos ao longo das duas últimas gestões de reitores, porque o processo de implantação embora encerrado, não conclui o processo natural de crescimento de uma universidade. Admiro as pessoas que se dedicaram ao desafio de dar seguimento a estes propósitos, que nas gestões seguintes se doaram tanto e continuam se entregando vivamente ao desafio constante de administrar uma universidade multicampi como a nossa. A todas elas, meu mais profundo reconhecimento e admiração.

     Quando eu assumi a vaga de professor na Unipampa eu estranhei a universidade, aparentemente pequena, com tão pouca história, poucos professores, poucos prédios, e muito apenas por fazer. Eu vinha de uma universidade maior, com dezenas de prédios, um Campus central enorme, e alguns pequenos campi no interior. Aqui a realidade era outra, com dez campi espalhados por toda a parte sul do Estado. Lamentei não termos em nossa sigla a imagem clara de que somos uma instituição federal, fomos muitas vezes confundidos com instituição privada, lamentei várias escolhas que na época da implantação foram feitas, como a logomarca da Universidade, que sempre me pareceu mais um signo apropriado a uma empresa ambiental ou algo próximo a isso, mas também sempre soube reconhecer que se não estamos lá quando o trabalho é feito e as decisões são tomadas, não devemos entender que possamos julgar a decisão de quem lá estava. É sempre mais fácil quando se olha apenas de fora.

      Hoje a ACS cresceu, está cheia de servidores e colaboradores, alunos bolsistas, estagiários ou técnicos e desejo que estes profissionais façam dela no seu dia a dia um ambiente com a mesma obstinação e dedicação de quando ela começou, e que atuem na promoção e consolidação da imagem pública de nossa Universidade. Muitos avanços foram conquistados, de normatização e qualidade dos processos, e outros ainda certamente virão. Tudo isso nos dá a certeza de que cada pequena ação que fazemos se torna gigante numa linha do tempo, nos dignifica enquanto servidores e nos encanta como pessoa.